Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação

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A Boitempo Editorial publicou em parceria com o portal Carta Maior a coletânea Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação, quarto volume da coleção Tinta Vermelha. Ao longo de 16 artigos, a obra incita o debate público sobre o tema e traz propostas para reverter o quadro.

A coleção aborda perspectivas variadas sobre um tema atual e já conta com o sucesso de três publicações: Occupy (2012), Cidades rebeldes (2013) e Brasil em jogo (2014). Como acontece em todas as edições de Tinta Vermelha, autores cederam gratuitamente seus textos, o tradutor não cobrou pela versão do original para o português, e os fotógrafos e o ilustrador abriram mão de pagamento por suas imagens, o que possibilitou deixar o volume a preço de custo. O formato e o preço (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book) tornam o livro acessível a um maior número de pessoas.

A obra reúne contribuições de 19 autores e foi lançada durante o Seminário Internacional Cidades Rebeldes, realização da Boitempo em parceria com o Sesc São Paulo.

É o caso do britânico Stephen Graham, professor da Faculdade de Arquitetura e Planejamento na Universidade de Newcastle, Inglaterra, e autor do livro Cities Under Siege (no prelo pela Boitempo).

Em seu artigo, o urbanista discorre sobre a urbanização militarizada, tomando como ponto de partida o uso cotidiano de drones pelas forças policiais dos Estados Unidos, Europa e Ásia Oriental; de armas “não letais”, ou “soluções securitárias” de ponta, com eficácia “comprovada em combate”, no policiamento agressivo e militarizado de manifestações públicas em Londres, Toronto, Paris e Nova Iorque – o que remete também ao cenário das manifestações de junho de 2013, em São Paulo.

O psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, interpreta a cultura que prega a violência policial e a força conservadora no Brasil, que define como “direita violenta”. Ponto de vista complementado pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de segurança pública e autor do livro Elite da tropa, que aponta as dificuldades para implementar mudanças na polícia brasileira, a partir de perspectiva de políticas públicas de segurança; e pelo depoimento do coronel Íbis Pereira, chefe de gabinete do comando-geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, sobre como combater a perversa estrutura do trabalho policial.

Dois artigos foram assinados por instituições, trazendo, portanto, o ponto de vista de uma coletividade. Um deles foi redigido por pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), o primeiro centro acadêmico a se dedicar especificamente a estudar crime e polícia em nosso país. No texto, os pesquisadores mostram as diferentes explicações sobre a violência policial produzidas no Brasil e no exterior. O outro, assinado por participantes do Movimento Independente Mães de Maio, conta a história e a luta do coletivo que congrega familiares das vítimas de violência policial.

“Uma conclusão quase unânime dos autores é que um dos insumos da violência é a ausência de democracia real. Afinal, o sistema democrático no Brasil é uma conquista recente. Talvez por conta disso tenhamos mais problemas com os órgãos de segurança do que países onde esse sistema existe há mais tempo e onde a participação democrática vai além do direito ao voto”, reflete o cientista político Guaracy Mingardi na apresentação do livro.

Em texto elaborado a quatro mãos, os cientistas políticos João Alexandre Peschanski  e Renato Moraes tratam das “lógicas do extermínio”. Segundo os pesquisadores, o entendimento da violência policial no Brasil passa necessariamente pela economia política e seus mecanismos excludentes. Já a juíza Maria Lucia Karam, no artigo “Violência, militarização e ‘guerra às drogas’”, discute os desafios para uma efetiva desmilitarização da sociedade.

Contribuições jornalísticas trazem outros contornos à coletânea: Laura Capriglione analisa a cobertura da mídia e suas contradições e Fernanda Mena traça um panorama nacional da violência policial. O deputado federal Jean Wyllys aborda a necessidade de ampliação da comunidade de direitos, ou seja, a justiça social, em contraposição ao endurecimento das ações policiais.

A psicanalista Maria Rita Kehl tece críticas aos sucessivos governos no comando da Polícia Militar de São Paulo, que nos faz “recordar a retórica autoritária dos militares”. “Ordem e violência no Brasil”, do também psicanalista Tales Ab’Sáber, é um ensaio sobre o fenômeno da violência policial na cultura conciliatória contemporânea, em meio a manifestações, resistência e reminiscências da ditadura. Por sua vez, a socióloga Vera Malaguti comenta a segurança pública como decorrência de um conjunto de projetos públicos e coletivos capazes de gerar serviços, ações e atividades no sentido de romper com a geografia das desigualdades.

Bala Perdida inclui ainda um conto inédito de Bernardo Kucinski (“A história de Tadeu”); prólogo do deputado estadual Marcelo Freixo; e uma participação especial de Eduardo Suplicy, secretário municipal de direitos humanos em São Paulo. O quadrinista Rafa Campos criou uma tira para o livro, que ilustra a abertura dos capítulos. O ensaio fotográfico de Luiz Baltar retrata remoções forçadas e ocupações militares em diversas comunidades e favelas do Rio de Janeiro desde 2009.

 


 

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